As primeiras viagens que tenho memória foram na boleia do caminhão do meu pai. Lembro de cruzar a Avenida Paulista durante uma madrugada gélida em fevereiro do ano 2000 e ficar encantado com os arranha-céus. Falei sobre isso durante semanas para meus colegas da Escola de Educação Básica Henrique Lage, na pequena Imbituba, no litoral sul de Santa Catarina.

Na manhã seguinte, enquanto meu pai descarregava sua carga no centro de distribuição do Pão de Açúcar, assisti na pequena TV sem cores do caminhão o Brasil golear a Tailândia por 7×0. Foi a primeira vez que ouvi falar no paradisíaco país asiático. Mal sabia eu, aos 11 anos de idade, que minha versão adulta viajaria mais de 40 horas em 2017, entre voos e conexões, para viver durante 1 mês aquela cultura tão distante.

10 anos antes da experiência tailandesa, no início da faculdade, fiz minha primeira viagem internacional. Um congresso de relações internacionais em Buenos Aires, na vizinha Argentina. Do congresso confesso que lembro pouco, mas os detalhes da cidade ainda estão frescos na minha memória.

De lá para cá minha vida mudou bastante. Transformei o gosto pelas viagens em estilo de vida, aliando-o ao trabalho, e já conheci quase 20 países desde então. Me tornei o que chamam de nômade digital. Agora tenho muito mais histórias para contar aos amigos da pequena Imbituba – ou da um pouco maior Tubarão, também em Santa Catarina, meu CEP oficial no Brasil.

Hoje, por exemplo, escrevo esse texto de um café no cruzamento entre a 9th Street com a 3rd Avenue em Nova York onde Jack Kerouac, autor do clássico “On The Road” e meu herói literário, costumava tomar uns tragos nos anos 50 com seus amigos beats. Estar no mesmo ambiente frequentado por ele me encheu de inspiração parar criar.

Por que conto tudo isso?

As viagens desenvolveram minha inteligência emocional

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Foto: Laís Schulz.

No último ano chamei México, Coreia do Sul, Tailândia e Argentina de casa. Viver em países diferentes, mesmo que por alguns meses, abriu meus olhos para diferentes culturas e me ajudou a perceber que, independente da nacionalidade, a natureza humana é mais similar do que diferente. Viajar nos torna mais tolerantes com costumes, religiões e crenças antes vistas com desconfiança.

As viagens também têm me ajudado a ser mais criativo. Embora eu não viaje sozinho, minha esposa é minha fiel companheira de viagem, há dias em que bate aquela saudade dos familiares e dos amigos que ficaram no Brasil. Ou mesmo do nosso apartamento, das nossas coisas. Porém, o que percebi estando longe dos meus entes queridos e dos poucos bens materiais que tenho é que esse sentimento de solidão pode funcionar como um propulsor criativo. Longe de tudo isso consigo organizar melhor minhas ideias, pensar, refletir e encontrar inspiração para criar e inovar.

Ok, talvez você argumente que não é preciso viajar para organizar suas ideias ou encontrar inspiração. Porém, do ponto de vista prático, de alguém que está na estrada, tenho um conselho: sempre que possível, viaje.

Viajar pode desenvolver sua inteligência emocional. Você será forçado diariamente a lidar com situações que fogem do seu conforto. Novas pessoas, novas culturas, novos idiomas, novos gostos, novos sentimentos. Esse tempo maior que você passará consigo mesmo, ou seja, tendo que lidar na maior parte do tempo apenas com seus pensamentos, será um exercício incrível de autoconhecimento que nenhum curso ou palestra vai te ensinar. Isso vai te deixar mais forte emocionalmente.

Estar fora de casa te faz lidar melhor com seus sentimentos e apreciar cada momento vivido. Sempre que volto de uma viagem, por exemplo, busco estar com as pessoas que gosto e me fazer, de fato, presente. Presto atenção aos detalhes antes despercebidos e me forço a aproveitar momentos antes vistos como rotina. Seja no jogo de futebol do time da cidade, numa caminhada na praia ou mesmo numa ida ao supermercado. Ter inteligência emocional significa identificar as suas emoções com mais facilidade.

Nas palavras de Daniel Goleman, autor do best-seller “Inteligência Emocional“, “entre as características da inteligência emocional está a capacidade de controlar impulsos, canalizar emoções para situações adequadas, praticar a gratidão e motivar as pessoas, além de outras qualidades que possam ajudar a encorajar outros indivíduos“. Viajar pode ser a resposta para desenvolver essas habilidades.

E se eu te falar que me tornei uma pessoa mais sociável?

Além dos aspectos emocionais, tenho desenvolvido algumas habilidades sociais. “Networking” deve ser a palavra mais utilizada no LinkedIn. Confesso que raramente participo de eventos da minha área de atuação. Digo isso porque a principal dica de qualquer profissional para que você construa uma boa rede de contatos passa por participar de eventos e workshops. E eles não estão errados.

Quem me conhece pessoalmente sabe que sou introvertido. E talvez venha daí minha indisposição de participar dos tais eventos. Porém, desde que comecei a viajar para o exterior com frequência, tenho desenvolvido um outro lado meu: conversas espontâneas. Já contei num texto como um adaptador de tomada em Chiang Mai, na Tailândia, rendeu uma boa conversa e um negócio fechado com um blogueiro americano sexagenário.

Os nômades digitais são uma comunidade unida e com a mesma visão de mundo. Então, estar perto de outros nômades, fora da minha zona de conforto e do meu idioma nativo, me ajuda a melhorar meu relacionamento interpessoal e construir novas conexões – antes limitadas ao virtual. Como meus familiares e amigos estão longe, eu sou obrigado a puxar essas conversas caso queira ter algum tipo de convívio social.

Viajar é coisa de rico“, eles disseram

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Foto: Laís Schulz.

Um dos maiores mitos quando se fala em viagens internacionais é que isso “é coisa de rico”. Porém, viagens não precisam ser caras e você não precisa ir para longe. Antes de sairmos para nossa jornada nômade ao redor do mundo, conhecemos lugares incríveis na serra catarinense.

Meu ponto é que, de vez em quando, num final de semana, você pode pegar seu carro ou um ônibus e visitar uma cidade vizinha. Viajar, mesmo que para um destino próximo, pode ser um ótimo exercício para encontrar novas fontes de inspiração, ideias e conceitos.

Porém, quando possível, viaje sim para o exterior. No be freela já contamos como encontramos passagens aéreas baratas e o que fazemos para economizar dinheiro. O que posso dizer é que tudo é uma questão de escolhas. Enquanto alguns amigos estão comprando os carros do ano, as roupas da moda ou apartamentos saídos do Pinterest, nós preferimos usar nosso capital em viagens.

A maioria das coisas que você pode comprar não cria experiências duradouras ou as lições proporcionadas pelas viagens. Talvez esse seja um modelo que não funcione para você, mas tem sido extremamente gratificante para nós. Escolhas.

Por fim, abra sua mente

Você não se tornará um nômade digital da noite para o dia. Isso é algo que leva um bom tempo de planejamento e a realidade é que muitas funções ainda não pode ser realizadas remotamente.

Entretanto, se você trabalha em regime CLT, aproveite suas férias para viajar. Seja para a cidade vizinha ou para a Coreia do Sul, você sempre poderá aprender algo novo conhecendo um meio diferente do seu.

Durante nossa estadia em Nova York, por exemplo, conhecemos um designer carioca que trabalha numa agência e está de férias por aqui. Visitamos algumas lojas de marcas famosas em sua companhia porque ele buscava inspiração para seus trabalhos. Além disso, o Arthur faz alguns trabalhos como fotógrafo e aproveitou para atualizar seu portfólio com fotos da cidade.

Em última análise, quando você está viajando, o ponto não é apenas experimentar comidas ou conhecer lugares turísticos. Viajar é uma chance para você refletir, organizar suas ideas e, finalmente, criar!

Ao viajar, leve consigo seu laptop, smartphone, câmera ou caderno – quaisquer que sejam as ferramentas necessárias para você escrever, desenhar, esboçar, programar, fotografar ou tirar ideias do papel. Acredite: isso é muito mais recompensador do que apenas fazer atividades passivas como visitar a Estátua da Liberdade ou jantar num restaurante chique.

Eu sei que nem todo mundo vai sentir a mesma conexão com viagens que eu sinto, mas, ainda não encontrei nenhuma atividade além de viajar que mude tanto a maneira de uma pessoa enxergar o mundo.


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Nômade digital que escreve, empreende e ensina. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital, na Comunidade Rock Content e no Medium.