Todo escritor precisa ler — não muito, apenas umas 50 páginas por dia. Na escola, eu bem me lembro, sofria para concluir os livros que caiam em minhas mãos. Só que aos 14 anos um amigo me apresentou J. R. R. Tolkien e, desde então, convivo diariamente com a leitura, mesmo que ainda não tenha conseguido atingir a marca de 50 páginas.

Ao terminar a trilogia de O Senhor dos Anéis, comecei a esboçar os primeiros textos. Escrevia poesias de amor e as despachava, com um amigo, debaixo das portas das meninas mais bonitas do condomínio que morávamos — as cartas e as entregas, evidentemente, anônimas. Até onde sabemos nunca ninguém descobriu, e, também, nunca conseguimos obter o que desejávamos. Mas era prazeroso escrever e sentir a adrenalina da entrega. 

Na faculdade, me tornei um cronista engavetado, ou melhor, um escritor de apenas um leitor. Tudo o que escrevia era soterrado nas gavetas pela minha timidez ou narrado para a minha tia quando ela suportava me ouvir. Perceba que não havia leitor, somente uma pessoa com a bondade de ajudar um universitário a se desenvolver. Mas quando chegou a exaltação dos blogs (2005), me aventurei na internet, ainda que receoso com o meu ser, as minhas ideias e toda a tecnologia que invadiu as nossas vidas sem pedir licença.

Só que eu continuava lendo… Nessa época, o livro de Gabriel García Marquez, Memórias de Minhas Putas Tristes, e a crônica Pipoca, de Rubem Alves, escreveram sublimes sentimentos em meu coração. Com Marquez me diverti à beça e registrei o desejo de escrever com estilo fácil, simples e refinamento constante; com Alves, “Minhas ideias começaram a estourar como pipoca” em direção àquilo que gostaria de me tornar.

Enquanto não estava com os olhos grudados em algum livro, resolvi me tornar redator publicitário. De início, estagiei por 3 meses sem receber rigorosamente nada. De alguma maneira, me virei para acertar as palavras no trabalho e as contas no final do mês. O amigo leitor deve ter notado, portanto, que sobrevivi e passo bem. Terminado o estágio, fui passando por outras agências, como é habitual na área de comunicação. Com o diploma em mãos, mais uma comemoração –– fui demitido do cargo de redator, com a justificativa que a escrita não era o meu forte. Consegue imaginar o impacto dessa notícia? Pois é, meu mundo parou e a escrita também.

Então, fui fazer terapia com a própria vida. No curso de Psicanálise e Psicologia Econômica, aprendi que “A razão é escrava da emoção e existe para racionalizar a experiência emocional”. Nas leituras complementares do curso, me dei conta de que a emoção interfere significativamente na nossa capacidade racional, tornando-nos vulneráveis a qualquer estímulo. Se pudéssemos fatiar fino, como sugere Malcolm Gladwell, em seu livro Blink — a decisão num piscar de olhos, seria mais ou menos assim:

“Os grandes tomadores de decisão não são aqueles que processam a maior quantidade de informação possível, nem aqueles que usam uma grande quantidade de tempo analisado, mas sim aqueles que aperfeiçoaram a arte de filtrar poucos fatores importantes dentre um grande número de variáveis”.

Duvidar também é um aspecto importante nas tomadas de decisões do dia a dia. Philip E. Tetlock e Dan Gardner, no livro Superprevisões — a arte e a ciência de antecipar o futuro, sugerem o que os psicólogos chamam de viés de confirmação:

“Raramente procuramos uma evidência que contradiga nossa explicação inicial, e quando essa evidência é esfregada em nossa cara, nos tornamos céticos motivados — encontrar motivos, por mais débeis que sejam, para menosprezá-la ou descartá-la inteiramente”.

Assim, fui me recuperando do baque da demissão — lendo e, raramente, escrevendo. E por ter freado a caneta, caminhei por outras áreas: setores de marketing, estúdio de fotografia, teatro e, no destino final da conturbada jornada, gestão de pessoas. Nesta última função, vivi instantes maravilhosos em matéria humana, mas também absorvi boa parte da amargura enraizada do mundo corporativo. Para aliviar a tensão, resolvi escrever um livro. Em 6 meses, concluí o Alltruísmo. O que fora, portanto, um trauma de uma demissão como redator publicitário, possibilitou-me a admissão de uma nova vida. Em 2017, dois anos após o primeiro lançamento, veio o segundo livro, Entre Janelas Mágicas.

Só que os meus livros não tiveram o mesmo impacto de vendas de J. R. R. Tolkien, Gabriel García Marquez e Rubem Alves, de modo que experimentei, em matéria financeira, praticamente a mesma aflição do primeiro estágio. O alívio das contas se deu através de um freela aqui outro acolá. Mas viver assim, em constante tensão, não é nem um pouco agradável. 

O leitor deve estar lembrado que em um determinado momento fiz terapia com vida – estudei Psicologia e Psicanálise Econômico, além de muito estudo e leituras sobre temas relacionados. E assim, posso afirmar que toda essa vivência aparentemente desconexa, hoje me proporcionou também mais uma prazerosa ocupação profissional: além de escritor, atuo como terapeuta – e sou muito feliz com essas duas atividades.   

Ao olhar no retrovisor, a vida me ensinou que, mesmo em situações que julgamos ser desagradáveis, o melhor sempre acontece para cada um. E hoje, como terapeuta e escritor, sinto-me útil e integrado à vida, pois reconheço o meu caminho, representado nas palavras de William Zinsser, em seu livro Como Escrever Bem: 

“Assim como levamos muito tempo para sermos nós mesmos, é preciso muito tempo para encontrarmos a nós mesmos como donos de um estilo singular, e, mesmo depois disso, nosso estilo irá modificar-se à medida que ficarmos mais velhos”.

Terapeuta em Barras de Access, Escritor, com dois livros publicados - “Alltruísmo” e “Entre Janelas Mágicas” -, colabora com a Revista "New Order", desde 2016, e é pesquisador freelancer há mais de um ano na Santo Caos - realizando trabalhos para clientes como Cargil, Novartis, Citrosuco e Ortho Clinical.